UMA LISTA DE LEITURA SOBRE DESCOLONIZAR A CONSERVAÇÃO
O conteúdo de hoje foi intitulado “Uma lista de leituras sobre descolonizar a conservação”, mas ele poderia facilmente se chamar “Um apelo aos biólogos”.
Ele se
baseia na introdução que Sara Cannon - do Departamento de Geografia da
Universidade da Columbia Britânica - fez para justificar uma lista de leitura
que ela elaborou sobre o tema da descolonização, dedicado principalmente a
profissionais da conservação da natureza que vem de formações das ciências
naturais.
A minha
formação de base é a Biologia e depois eu fiz mestrado em Ecologia. Como dizia
o saudoso professor Carlos Walter Porto Gonçalves, “toda formação é uma
deformação”.
E reconhecer naquilo que a gente é deformado quando se
forma em alguma coisa é importante para a gente compreender as limitações
das nossas leituras da realidade.
A Sara conta
que ela fez essa lista de leitura com o objetivo de ajudar pessoas não
indígenas bem-intencionadas - como ela e, acredito, como eu - a se educarem
sobre as raízes colonialistas, supremacistas brancas e imperialistas da
conservação da biodiversidade.
Ela aborda
que muitos de nós trabalhamos em lugares que têm longas histórias colonialistas,
onde os impactos desses processos ainda se fazem sentir e, em grande parte, ainda estão operando, ainda estão em andamento.
E não
importa o quão bem-intencionado seja o trabalho da conservação, ele tende a
continuar esses legados.
Para parar
de causar danos às comunidades indígenas e locais, a gente primeiro precisa
começar a entender as muitas maneiras pelas quais o trabalho de conservação - o
trabalho que fazemos e as suposições nas quais embasamos o que fazemos - são
informadas e formadas por essas estruturas.
Na experiência
da Sara, assim como na minha, a maioria dos biólogos e conservacionistas de
várias áreas de especialização realmente quer tornar o mundo um lugar melhor
para todas as pessoas e se importam com as áreas onde trabalham.
Para mim, é
por isso que faço trabalho de conservação para começo de conversa.
Mas muitas pessoas
envolvidas com a conservação nunca foram ensinadas sobre as maneiras pelas
quais esses processos podem impactar os povos e as comunidades locais.
Em vez
disso, aprendemos sobre uma Biologia e uma Ecologia de ecossistemas ditos "naturais",
a partir de uma ideia de que precisamos proteger a natureza das atividades
humanas, pressupondo que pessoas e natureza são entes separados uns do outro.
Mas essa é
uma narrativa que tem raízes históricas baseadas no colonialismo e no
apagamento dos povos indígenas.
A conservação
da natureza vem de uma história relacionada com a supremacia branca. E a perpetuação
dela é testemunhada por muitas coisas, incluindo o imperialismo na academia, uma
falta de apreciação das Ciências Sociais e Humanas na educação em Ciências Naturais
- embora as Ciências Sociais e Humanas também não estejam isentas de perpetuar esses
legados.
Esses são
alguns fatores que contribuem para uma ignorância geral dos impactos contínuos
do colonialismo entre aqueles que são formados nas ciências físicas ou naturais,
especialmente aqueles de nós que têm o privilégio de não ter que enfrentar os
impactos do colonialismo em nossas vidas diárias.
Nós
carregamos esse privilégio e essa ignorância conosco quando fazemos o trabalho
de conservação, o que pode contribuir para perpetuar os danos e contribuir para
o apagamento para comunidades locais.
A lista de
leitura da Sara tem por objetivo fornecer um ponto de partida para os
conservacionistas começarem a entender o que significa descolonizar a
conservação e combater os padrões colonialistas.
Para isso é
importante entender que a versão europeia da ciência não é superior ao
conhecimento ecológico local e tradicional mantido pelos povos originários e
comunidades tradicionais.
Isso
significa que para que o trabalho de conservação ser eficaz e justo, devemos aprender
a respeitar o conhecimento que eles carregam, apoiando seus movimentos e ajudando
a consertar os danos que causamos ao redor do mundo por meio do capitalismo, do
colonialismo, do imperialismo e por aí vai.
Reconhecer que essas coisas estão
interconectadas e entrelaçadas.
Logo abaixo você encontra o link para a lista de leituras da Sara. Você vai perceber que maioria dos textos está em inglês e também que têm poucos exemplos
sulamericanos.
Parte deles eu
pretendo ir transformando em outros conteúdos aqui para o Blog e para o Canal do Youtube.
Uma proposta de lista de leitura à brasileira
Mas fica o convite
para começar a fazer uma lista com referências brasileiras. Porque apesar dos inúmeros
desafios que temos nesse campo, também temos bons exemplos que merecem ser
valorizados e visibilizados.
Então eu termino
aqui desde já agradecendo quem vai ajudar a compilar sugestões de leituras e
materiais para compor um acervo adaptado para a nossa realidade.
Conteúdos que
possa inspirar aqueles que ousam se inconformar com a injustiça e que se
atrevem a rever as suas próprias bases e as bases dos sistemas a partir dos
quais operam para inovar, reconhecendo as deformações das nossas formações e
buscando integrar outras perspectivas.
E, com isso, poder fazer diferente!
Que esse
possa ser um recurso útil e que evolua constantemente, enquanto ele for
necessário.
Conto com
você!
Obrigada
Por Érika Fernandes
Pinto, 11/11/2024.
Link para a Lista de Leitura de Sara Cannon
Assista a
esse conteúdo em vídeo no Canal do Youtube VALORES CULTURAIS DA NATUREZA

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